8 anos sem televisão: um relato

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Em 2005 eu era um jovem de 18 anos partindo para a vida na grande cidade de São Paulo, onde fui com o propósito de estudar Artes… Sempre fui um cara de poucas posses materiais, então realmente não havia muito o que levar. Foi meio sem perceber mas quando vi, já estava rolando: eu não tinha mais uma televisão dentro de casa. Embora parentes e amigos tenham oferecido para mim aparelhos televisores que estavam sobrando ou encostados (“mas você não quer uma TV? POR QUE? O que vai fazer sozinho em casa?”), eu percebi uma situação interessante se desenhando, a vida sem a influência da programação diária das emissoras. Com o passar dos dias eu pude perceber os inegáveis benefícios desse estilo de vida. Vamos a eles.

BENEFÍCIOS A CURTO PRAZO:

– A DILATAÇÃO DO TEMPO. É realmente impressionante como o dia se alonga longe da televisão. Mesmo para mim, que assistia apenas alguns desenhos animados e noticiários, a sensação de dilatação do tempo foi impressionante. Supondo que eu assistisse a 2 horas de televisão diárias. Em uma semana surgiram novíssimas 14 horas livres. Faça a conta para os meses, para os anos e surpreenda-se com o tempo que gastamos em frente ao televisor. No começo era até meio esquisito mas comecei a prestar mais atenção em mim mesmo e nas coisas que gostava de fazer. O que nos leva à próxima percepção:

– MUDANÇA DO TEMPO INTERNO. As imagens em movimento tem uma característica curiosa. Por se sucederem rapidamente, uma após a outra, não temos tempo para refletir sobre a primeira e a segunda já nos toma a atenção. Após o abandono da TV percebi com o tempo que me tornei um cara mais “devagar”, mais sossegado e menos ansioso. Sem o barulho e os deslocamentos e mudanças rápidas da TV algo em mim parece ter se acalmado. Passei a ruminar meus pensamentos com mais calma. Analisar os fatos com mais tranquilidade, pois com cada vez menos interferências externas, maior cuidado passei a ter em minhas observações. O que cria uma brecha para o próximo tópico:

– MUDANÇA DE REFERÊNCIA / DEDICAÇÃO A SI MESMO. Com o meu novo tempo extra, comecei a passar mais tempo nas atividades para as quais eu estava voltado no momento – leituras, desenhos e caminhadas pela cidade de São Paulo. Desligado das notícias, das novelas, das propagandas, das desgraças televisivas, do lugar comum, percebi o quanto estava me aproximando de mim mesmo, longe do ruído da mídia de massa. Enquanto isso, desenhava muito e lia ótimos livros, além de minhas caminhadas por SP, o que aliás me fez lembrar de algo:

– REDUÇÃO DOS DESEJOS DE CONSUMO E INSATISFAÇÃO PESSOAL. Um dos segredos da televisão e da propaganda é fazer você se sentir um lixo. Sabia disso? Independentemente da mensagem, o objetivo é abrir lacunas em sua vida, criar defeitos, necessidades e falsos desejos. Para que você se sinta incompleto e use seu precioso dinheiro, que é unicamente o que interessa – o seu dinheiro. Porque afinal, você merece ter o melhor, certo? A operação da propaganda age em 3 sentimentos básicos:

  1. O título de “Consumidor” – “eu mereço gastar o meu dinheiro”.
  2. A superioridade individual – “eu mereço as melhores coisas que o dinheiro pode comprar”
  3. A aceitação da estupidez – “eu me exponho voluntariamente a esse lixo”

Pois longe da TV você nem vai saber que a maioria das coisas existem por aí, não vai ver gente “bonita” de TV desfilando objetos ou dotes físicos que você nunca vai ter. Você vai ver sim pessoas de verdade nas ruas, seus amigos, a si mesmo, e a vida longe das telas.

– REDUÇÃO IMEDIATA DO NÍVEL DE BURRICE. A Teoria da Comunicação é clara. Quanto maior a audiência de um produto midiático, menor o nível de informação que ele deve conter. E vice versa. Não é difícil fazer a conta: os programas de televisão tem nível de informação nulo ou muito próximo do zero. E com “informação” queremos dizer algo que tenha um impacto “real” em sua vida, algum tipo de modificação ou efeito prático no sentido de construir a si próprio como indivíduo pensante. Mas pra que tudo isso né?

BENEFÍCIOS A MÉDIO PRAZO:

– CORPO E MENTE MAIS SAUDÁVEIS. Eu tenho me assustado com a quantidade de pessoas pançudas por aí. Não são gordas – muitas são magras e ainda assim ostentam a famosa pança. A pança, para mim, é o resumo do estilo de vida televisivo. Sentado, curvado, passivo diante da TV, o espectador se alimenta de hamburgueres de microondas e chocolates enquanto seu cérebro e seu espírito são devassados pela miséria e estupidez expelida de seu aparelho. A letargia mental e física aprofundam suas raízes na poltrona. Poucas coisas no repertório do HOMEM DE BEM são mais deprimentes. E pra você que gosta de números? Segundo este confiável infográfico:

  • pessoas que se sentam por 3 horas diárias perante a TV tem 64% mais chances de morrer de ataque cardíaco;
  • dos que assistem TV por 3 horas diárias, os que se exercitam são tão gordos quanto os que não se exercitam;
  • cada hora adicional na frente da TV implica no aumento do risco de morte calculado acima em 11%.

É como se o corpo se rebelasse contra esse hábito deplorável.

– AUTOCONHECIMENTO. Não é papo espiritualista, esotérico ou autoajudante. Você realmente vai começar a conhecer melhor a si mesmo, com o passad do tempo: o que gosta, o que não gosta, os seus pensamentos e o seu jeito de lidar com as pessoas e com as coisas. O silêncio advindo da ausência de TV operará esta transformação em você, quer goste disso ou não. E não é um processo fácil. As vezes sentimos vontade de “esvaziar a cabeça” – a televisão é usada deliberadamente por muitas pessoas com esse propósito. Ou romances baratos, trilogias editoriais simplórias, televisão encadernada mascarada como literatura… Mas esse é o jeito dos fracos. É a s solução dos que preferem tirar o cérebro pra fora e colocá-lo para cozinhar dentro da geléia morna e gostosinha da mídia de massa. Encarar a consciência e o próprio Eu de frente é uma tarefa difícil, desconfortável, solitária. Pense bem se você deseja isso; talvez seja melhor vocẽ se ater aos programas dominicais.

– CONVERSAS E PESSOAS MAIS INTERESSANTES. Isso ocorrerá inevitavelmente, em sinergia com o item acima. Imagine que agora a novela, o jornal, propagandas, nada disso pode ser assunto de suas conversas, porque você simplesmente não sabe mais nada a respeito dessas inutilidades. Isso representa um aumento de espaço considerável em sua mente e o refinamento de suas ideias. Agora você é uma pessoa mais dedicada a si mesma, e tem mais conhecimento de si própria, e por isso mesmo é capaz de ter empatia com pessoas desse tipo, e se interessar verdadeiramente por elas. Não se surpreenda se de repente você estiver conhecendo pessoas que também não se interessam por TV e travando diálogos realmente interessantes com elas.

BENEFÍCIO A LONGO PRAZO

– AUMENTO SUBSTANCIAL DO INTERESSE PELA VIDA. Parabéns. Você passou esses anos todos longe da telinha. Longe da simulação e das mentiras. Longe do discurso que te trata como consumidor, como eleitor, como telespectador – como uma pessoa alienada de sua própria vida. Há tempos você não escuta de ninguém o que deve fazer, o que deve comprar – ok, talvez escute, mas que seja pelo menos de pessoas reais, de carne e osso, com quem você pode conversar – e a sua voz interna hoje é muito mais audível. Você vai fazer a feliz constatação de que, cada vez mais, um vivo e real interesse pelas pessoas, pelos lugares, pelas ideias elevadas, estará crescendo dentro de si. Quando conversar com alguém, você terá mais facilidade em ouvir a pessoa e dialogar em um nível sincero com ela. Entre outras inumeráveis surpresas, a vida sem TV desloca o foco dos personagens televisivos e da realidade que lhe foi sequestrada para sua própria vida, e a realidade diante de si (que não precisa ser necessariamente agradável, enfim).

– PERCEPÇÃO MAIS “REAL” DO MUNDO. Eu me lembro dos anos em que habitei São Paulo, no saudoso Ipiranga. Vez ou outra eu recebia a ligação de alguma pessoa conhecida, desesperada com as enchentes ou com situações violentas na cidade, perguntando se estava tudo bem. Ouvindo os pássaros que cantavam no quintal do meu refúgio aos fundos do bairro, eu dizia que sim, que estava tudo ótimo – São Paulo é uma cidade enorme, as coisas podem acontecer em um canto sem que o outro canto fique sabendo – A NÃO SER, é claro, que você esteja vendo o que acontece na TV, porque aí São Paulo realmente vai parecer um inferno muitas vezes pior do que realmente é (não deixa de ser um inferno, no entanto). A mídia tenta nos vender a mentira de que precisamos saber de tudo o que está acontecendo no mundo, e que ficar desinformado em relação aos acontecimentos globais implica em um tipo de perda ou disfunção social. David Henry Thoreau em seu brilhante A Vida sem Princípio diz que não dobraria a esquina de sua casa pra ver o mundo acabando. O que quero dizer com tudo isso é que você vai perceber um outro tipo de mundo, o mundo onde as coisas acontecem a seu redor, com pessoas e fatos reais, independente do que sejam. Seu foco estará totalmente voltado a esse mundo, o mundo em que efetivamente você vive e age, distante dos ecos desnecessários do aparelho televisor. Aproveitando o momento: também fica longe de propaganda política, o que é um elixir para o seu cérebro.

EFEITOS ESQUISITOS QUE ACONTECERAM COMIGO

– VIREI PRESA FÁCIL DE TELEVISÕES LIGADAS. Eu não esperava por isso, mas quando vou a um restaurante, casa de alguém, bar, qualquer lugar em que haja uma televisão ligada, eu devo me sentar de costas a ela ou ficar o mais longe possível. Tanto tempo longe das telas faz com que minha curiosidade seja atiçada gravemente diante de uma televisão, pois me atinge um desejo de querer saber o que as pessoas estão vendo, conversando nas ruas, pensando. Quando vejo uma TV ligada meus olhos grudam nela como imãs, atualmente…

– PERDI O ASSUNTO COM MUITA GENTE. Eu nunca sei qual novela está passando, o que está acontecendo no mundo, novidades do mundo da mídia, nada. Felizmente não fico na mão com meus amigos e amigas mais próximos, mas por aí eu percebo o quanto a TV é dominante em nossa sociedade.

– PERDI O HÁBITO DE “ASSISTIR”. Algumas pessoas ficam especialmente putas comigo por causa disso. Eu não tenho paciência pra assistir mais nada. Filmes, vejo raramente, e se é ruim não tenho paciência pra ir adiante. Clipes de música que a galera manda no Facebook, é foda, muito de vez em quando. Assistir imagens em movimento se tornou uma atividade que gera extrema preguiça em minha pessoa. Fora este diálogo clássico: “Já assistiu tal filme?” “Nunca vi…” “Puta que pariu cara!”

– PERDI O RESPEITO POR JORNALISTAS E PUBLICITÁRIOS. Nada pessoal, mas percebi o quanto sou mais feliz longe desse tipo de profissionais. Aliás, dizem por aí que a propaganda e o marketing brasileiros são “top de linha”. A julgar pela vergonha alheia extrema que sinto quanto passo alguns minutos na frente da TV, eu espero nunca ver uma propaganda de outro país considerado ruim no ofício.

– FICO EXTREMAMENTE IRRITADO COM ALGUMAS COISAS ENVOLVENDO VÍDEOS. Como por exemplo, quando existe uma animada roda de conversa entre amigos e um deles resolve ligar a TV. Ou quando vou visitar uma pessoa amiga e ela me convida pra ir ver vídeos no YouTube. Pessoa querida, eu vim te visitar, depois você me manda essa porra por email. Outra coisinha que aconteceu, agora eu acho a Videoarte um saco.

CONSTATAÇÕES

– 100% DO QUE EXISTE NA TV É UMA BOSTA. Não há exceção nem escapatória a essa verdade absoluta do universo.

– QUALQUER COISA QUE VOCÊ FIZER É MELHOR DO QUE ASSISTIR TELEVISÃO. Independente de quão glorioso ou lamentável seja o ato que você for realizar, ele envolve ação, escolhas, pessoas, lugares… É a sua vida em movimento, e não a de um fantoche que nada tem a ver com você.

É POSSÍVEL MANTER-SE INFORMADO LONGE DA TV. Melhor ainda: mantendo-se informado apenas das coisas que lhe interessam. E o melhor de tudo: você terá que pedir por elas, ir atrás, selecionar, escolher…

– É POSSÍVEL SE APROXIMAR DAS PESSOAS ASSISTINDO TV. Tive um problema sério em minha trajetória profissional, quando passei a dar aulas para adolescentes. Eu simplesmente não entendia muitas de suas gírias e contextos de conversas… Era aquela época em que todo mundo ficava falando “Ronaldo”. Assisti TV por uns 3 dias na casa de uma amiga e meu approach com a rapaziada melhorou bastante. As vezes quando vou visitar minha avó eu sento com ela e assisto a novela, ela gosta de me contar sobre os personagens, é um jeito de passarmos um tempo juntos. Eu aproveito pra fazer uma visão crítica da coisa. Usar sem ser usado. E ainda passar um momento agradável junto a quem se gosta. Não é necessário ser muito chato.

CONCLUSÃO

Não acho que esse estilo de vida sirva pra todo mundo. Este é um relato pessoal de como minha vida foi transformada pela ausência de TV. Eu não consigo mais nem conceber essa ideia em minha vida, diante de tantas possibilidades e coisas que quero fazer. Pode ser uma saída útil para pessoas com diversos desejos, mas estão perdidos em relação a eles, a como começar… A eliminação da TV traz imediatamente dois fatores: tempo livre e silêncio mental – o que pode ser enlouquecedor para alguns. Espero que seja de alguma forma animador e se quiser ajuda pra destruir o seu aparelho televisor, favor convidar!