A morte da literatura é um ótimo negócio

Publicado originalmente em · ideafixa.com · Internet Archive

Dia desses eu estava dentro de um ônibus semi-lotado em SP por volta das 23h; o motorista estava correndo que nem um maluco, os passageiros assustados, em uma curva ele passou um pneu por cima da calçada, o ônibus sacudiu todo, eu vi uma senhora rezando.

Então o ônibus parou com tudo no semáforo, e após reconquistar meu equilíbrio eu olhei pela janela e vi um carro com dois ocupantes, os dois utilizando o cinto de segurança. Lembrei que o uso de cinto de segurança é obrigatório. Porém, no ônibus, você deve ir sacolejando em alta velocidade, eventualmente de pé, sem cinto ou nenhum outro tipo de aparato de segurança.

Fiquei imaginando: se o ônibus em que eu estava batesse contra um poste, quem seria responsabilizado? O motorista, seu idiota – OK, o motorista, mas o motorista morreu no acidente, então de quem é a culpa? Inevitavelmente, a responsabilidade sobre o caso iria parar de nas mãos de alguma entidade sem rosto: a empresa de ônibus, a indústria automobilística, o governo, o Brasil, a sociedade, Deus, o diabo, a humanidade etc.

Porém, se um carro particular tiver sido enfiado em um poste, a culpa seria toda da pessoa dirigindo, fim da questão. O sistema já lavou as mãos desde o início sobre esse caso, com leis de trânsito, seguro obrigatório, cinto de segurança obrigatório, campanhas contra o consumo de álcool… O aparato está construído para evitar que motoristas não enfiem seus carros em postes e, ao mesmo tempo, transferir toda a responsabilidade de um eventual acidente para um indivíduo com rosto.

Já os passageiros de ônibus, um serviço público, são responsabilidade do sistema. A implementação de cintos de segurança em ônibus público seria evidência material de que o sistema é falho – o ônibus pode bater, coloque este cinto para não ser arremessado para fora e morrer.

Quando você entra em um ônibus e não vê nenhum cinto de segurança nas poltronas, em algum nível, pode ser bem lá no fundo, você pensa ou sente: se não há cintos, deve ser seguro andar de ônibus, eles não fariam ônibus sem cinto se ônibus fossem perigosos. Não há com que se preocupar, pois tudo isso já foi considerado para você. Fora o fato de que você não quer pensar na possibilidade de seu ônibus sofrer um acidente.

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Milhares de pais e mães do Brasil inteiro devem estar comemorando a possibilidade de aprovação da Lei Menino Bernardo. A mídia, como sempre, se apressou em achar um nome-slogan para a lei, que nos jornais e programas de cochichos virou Lei da Palmada, com o carismático casal Calheiros e Xuxa a tiracolo.

O maior alívio que emana dessa lei não é a possível extinção dos castigos físicos em crianças, mas a transferência de responsabilidade dos pais para o sistema. É uma resposta pronta para uma questão complicada: devo bater ou não na minha criança?

Caso a lei se torne realidade, a resposta é: você não deve bater, porque é crime. E se você perder o controle, reze para que não seja em público ou que seu filho não tenha uma câmera na mão. Uma alternativa é criar uma criança que não pense em te processar um dia.

A história da Lei Menino Bernardo está sendo vendida como um dilema entre bater ou não bater em crianças, mas isso é meramente uma distração: você não terá mais a liberdade ter essa dúvida, e isso é o que importa nessa história.

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Outro dia eu estava com um amigo vegan; ele estava analisando um pacote de bolachas tipo wafer, sabor chocolate. Após a leitura detalhada dos ingredientes, ele comemorou: nenhum produto de origem animal! Eu posso comer isso! 

Eu peguei o pacote para ver e, de fato, não havia nenhum ingrediente de origem animal, mas havia uma lista de substâncias enigmáticas. Eu comecei a rir da cara do meu amigo, mas ele me interrompeu para dizer o seguinte: eles não iriam usar essas substâncias se elas fossem nocivas; eles nem deixariam esse produto chegar às prateleiras.

Considero o consumo de alimentos industrializados como a mais abnegada profissão de fé no sistema. Você não faz a menor ideia do que sejam aquelas substâncias, mas você come, porque acredita que alguém (geralmente designado pela palavra “eles”) verificou que elas poderiam ser consumidas pela sociedade sem problemas.

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No texto do Romero Britto fui criticado por 1) escrever um texto desnecessariamente longo e 2) utilizar uma notícia fake, no caso a do aplicativo UnBritto para o Google Glass. Sobre isso eu só posso dizer que sou mesmo um escritor prolixo e que o fato da notícia ser falsa não tem relevância para o propósito do texto.

Afinal, quem possui um Google Glass? Ao mesmo tempo, a notícia não é sobre um aplicativo, mas sim sobre a percepção de artealta cultura de toda uma faixa de mercado (lei número zero da Internet: se você está vendo, é pra você). O que importa da notícia fake é que ela fosse propagada, para gerar dinheiro para alguém. Eventualmente alguém vai perceber que era fake, mas nada disso fica, a Internet lembra de tudo mas é ótima em esquecer de tudo.

Eu não sou uma pessoa de fazer apostas, mas se eu fosse, eu apostaria que as pessoas que fizeram esse tipo de crítica consomem textos e “notícias” na Internet. O que automaticamente quer dizer que essas pessoas vêem muitos anúncios. Mas eu não clico nos anúncios! – não importa, mídia e anúncios definem a intelectualidade média das pessoas com quem você convive, trabalha, divide espaço etc.

O texto abaixo é sobre como escrever bem, eu achei no Twitter. Traduzi três itens para o português, estão depois da imagem:

Knowledge & inspiration wrapped up into one memo via David Ogilvy – How to Write #OgilvyCannes #Inspire #CannesLions pic.twitter.com/gDZ0VKs3lL

— Ogilvy & Mather (@Ogilvy) June 11, 2014

3. Use palavras curtas, sentenças curtas, parágrafos curtos.
4. Nunca use jargões como reconceitualizar, demassificação, atitutinalmente, julgamentalmente. Elas são as marcas de um imbecil pretencioso.
5. Nunca escreva mais de duas páginas sobre qualquer assunto.

Sabe onde você encontra palavras como reconceitualizar? Nos textos de arte (fine arts, “arte com A maiúsculo”). Aliás, as suas primas, recontextualizar, ressignificar etc são muito recorrentes na literatura da arte contemporânea. Portanto, mediação nas exposições de arte. Eu costumo sair correndo do pessoal que trabalha no educativo dos museus e galerias, mas muitas vezes são pessoas que conheço, e acabamos falando de qualquer coisa menos arte.

No entanto, esse texto é sobre como escrever bem textos publicitários. Essas são fórmulas para a literatura da propaganda e marketing. Esse tipo de literatura é persuasivo, existe para induzir o leitor (espectador) a fazer juízos de valor, do tipo: esse produto é melhor que aquele. É o tipo de literatura que permite o seguinte fenômeno:

propaganda

Como a literatura da propaganda é predominante, a discussão de “arte boa” e “arte ruim” deve algo a esse tipo de pensamento. É por isso que uma marionete que escreve para a revista Veja escreveu um texto ridículo sobre “arte moderna” (aprofundarei isso no próximo texto).

Apesar de eu mesmo não ser um grande apreciador de algumas modalidades da arte, sou completamente a favor da liberdade incondicional de criação, a liberdade de chamar o que quer que seja de arte. Sou a favor de uma arte que seja criada não apenas para vender, para ser melhor que outra, mas simplesmente pelo fato da livre criação ser a nossa melhor chance de renovar o pensamento humano – seja na arte, na filosofia, literatura etc.

O grande problema enfrentado pela literatura (e pela arte) hoje em dia é que ela exige uma postura do leitor, um posicionamento, uma atitude: ler não é um ato passivo. Mas o pensamento das pessoas está sendo quebrado pela literatura da propaganda, que anda lado a lado com a literatura das novelas, seriados, best-sellers etc. Em todos esses casos, o trajeto já foi inteiramente pensado por outra pessoa; há um final definido, um objetivo, um fio condutor que leva todos os consumidores ao mesmo desfecho, pois daí esse produto (seja um livro, filme, seriado etc) pode ser discutido e dar origem a outros produtos.

Por isso, clássicos da literatura serão cada vez menos lidos (e o que dizer da poesia?) e a arte contemporânea precisará cada vez mais de mediadores e projetos educativos. Tanto a literatura como a arte existe um posicionamento de quem as consome, mas as pessoas querem que outra pessoa assuma esse posicionamento por elas.

Tenho certeza que qualquer pessoa que goste de uma boa novela, cheia de tramóias e dramas interpessoais, adoraria ler Os Irmãos Karamázovi. No entanto, é preciso encarar um tijolaço de centenas de páginas, sem um final definido, cujas conclusões dependem unicamente da interpretação do leitor; quem quer ler Dostoiévski agora?

O aspecto mais grave disso tudo é que todo o sistema está moldado para que as pessoas não queiram assumir responsabilidades, e é por isso que a morte da literatura é um ótimo negócio; sem ela, é possível vender muito mais trilogias e franquias e salsichas, e fazer comparações do tipo “arte boa” e “arte ruim”.

A medição da arte nesses termos é fruto da literatura da propaganda, e nesse sentido, perde-se algo muito importante: a arte não serve para ver quem desenha melhor, escreve melhor, dança melhor ou cacareja melhor. A arte serve para viver melhor. E eu copiei esse último parágrafo de alguém, mas não vou dizer quem é, pra entreter os caçadores de fakes.