Já foi profetizado por muitos e há tempos o fato de que o progresso tecnológico, quando não acompanhado do progresso humano, há de gerar situações de absurdidade as vezes intolerável, empurrando o ser humano para o niilismo e para uma vida sem empatia, regida pela “lei da máquina”.
Há também, em menor quantidade, os que alertaram para o iminente estabelecimento de uma relação mágica entre pessoa humana e máquina (na minha opinião Vilém Flusser é magistral a esse respeito). Mágica no sentido de que a pessoa humana, incapaz de interpretar apropriadamente os sinais e o uso da máquina, passaria a ter uma relação quase divinatória com seus aparelhos, utilizando-os e deles extraindo resultados mas sem compreender realmente o seu funcionamento.
Quando usamos uma calculadora para realizar um cálculo que não sabemos fazer sem ela, é uma espécie de relação mágica em que o aparelho nos salva da ignorância. Quando, antigamente, estapeávamos a lateral de nossa televisão para fazer a imagem voltar ao normal, também agíamos dentro de uma conflituosa relação mágica – havia um “jeitinho” para bater, um ponto na TV que costumava trazer melhores resultados – uma espécie de mandinga tecnológica do século XX.
O extremo desse exercício de pensamento é um mundo dominado pelas máquinas tal como retratado em Matrix e muitas outras peças de ficção científica anteriores e posteriores a ele. Isaac Asimov costumava descrever cenários e ocasiões bem particulares a esse respeito – quando a tecnologia relega a pessoa humana à alienação da natureza e da humanidade.
Pensei em tudo isso por causa de um passeio que fui dar no centro de São José dos Campos – eu adoro andar a pé no centro e ver as pessoas.
Em São José dos Campos – SP os semáforos para pedestres falam. Existe um botão que o pedestre pode apertar para, supostamente, causar uma interrupção programada no fluxo de carros (eis mais uma relação mágica com a tecnologia – pra que servem, de fato, os botões dos semáforos?). Estou partindo da suposição de que os semáforos falantes se dirigem à parcela da população de pessoas cegas, para que possam saber o momento de esperar e de atravessar. Ao apertar o botão, imediatamente uma voz robótica grita:
– AGUARDE O SINAL VERDE.
A voz robótica é uma emulação de voz feminina. Mas a precariedade do aparelho, aquele chiado característico dos rádios antigos, nos remete a imagem de uma dessas madres que sentem prazer em castigar crianças. Após alguns segundos, temos outra fala, essa automática:
– RESPEITE A SINALIZAÇÃO.
Então, o que essa frase acima nos informa sobre o trânsito, sobre o momento de atravessar a rua? Nada. Absolutamente nada. É uma lição de moral e civilidade ministrada por um poste falante. Me sinto particularmente ofendido como cidadão e me sentiria mais ainda caso fosse cego, pois além de não me ajudar, essa voz robótica está falando no imperativo como se fosse a mãe-robô do estado a corrigir nosso comportamento imprevisível de seres humanos. Mais alguns segundos:
– AGUARDE MAIS UM MOMENTO.
Está chegando a hora de atravessar a rua. Me sinto um pouco mais aliviado e presto atenção ao sinal de pedestres. O homenzinho fica verde, hora de atravessar a rua. Sabe o que nosso poste falante com voz de matrona cibernética diz nessa hora?
NADA. Nada. O sinal fica verde e o poste fica mudo.
Ou seja: no momento em que, de fato, a pessoa pedestre e cega deveria ser informada do momento de atravessar, nosso poste fica calado. Respeite a sinalização, mas azar o seu se você não pode enxergá-la.
Fica evidente que a instalação desse aparato foi feita por mera demonstração, exibicionismo, demagogia, aplicação de uma tecnologia que poderia ser útil de uma forma desastrada, inadequada e não-funcional. Eu penso até em lavagem de dinheiro. Que sem querer vai transformando a experiência urbana num labirinto sombrio de aparelhos e pessoas trombando umas nas outras, tecendo relações insanas e sem fundamento.