Lembro de uma cena emblemática de minha juventude nos anos 10 do século XXI. Havia combinado um rolê de bike com um amigo. Quando cheguei à sua casa, ele já me esperava lá na frente, mas em seu rosto havia um semblante de pesar, preocupação. Perguntei a ele o que se passava e ele disse “não é nada, vamos embora”. Mas depois de alguns minutos pedalando ele me confidenciou: havia atualizado seu status no Facebook e estava arrependido do que havia escrito, preocupado com o que algumas pessoas pensariam do que escreveu. Tanto que ele me pediu pra voltarmos rapidinho pra casa dele pra que ele pudesse apagar o que havia escrito.
O que aconteceu? Culpa, remorso? Excesso de auto-consciência? Ahhh meu amigo, o que aconteceu foi o seguinte: você, atrás de seu computador, estava todo valente, confiante em sua mensagem que, obviamente, a maioria de seus amigos iria curtir. Você postou a mensagem. Os minutos se passaram. Nenhum like. Nenhum comentário. Talvez um curtir solitário após meia hora. Ou pior, um comentário negativo de alguém. Você começa a se desesperar, pois após o tempo viu que sua mensagem não era lá essas coisas…

Porque uma situação como essa gerou um transtorno tão grande em meu amigo? A ponto de ele nos fazer voltar pra casa pra apagar o seus status? Vamos examinar por partes. Mas inicialmente, quem sou eu pra falar sobre isso? Pois bem, eu adoro a Internet, e não tenho vergonha nenhuma de assumir que adoro redes sociais, em especial o Facebook, que uso sistematicamente para promover meus trabalhos artísticos, textos e também o meu inflamado ego. Tenho um website ridículo (pode clicar, vai abrir uma nova aba e não tem pornografia – pelo menos na página inicial). Constantemente estou expondo meus pensamentos ao público. As vezes escrevo mensagens que eu sei que vão desagradar. E não fico me roendo sozinho em posição fetal em casa após postar minhas mensagens. Porque pra mim, está bem claro que…
1. As pessoas só querem saber de si mesmas
Essa é pra você que postou um comentário no Facebook e está amargamente arrependido. Eu tenho uma ótima novidade pra você. Ninguém esta nem aí pro que você escreveu – a não ser que esse texto ou comentário possa gerar algum tipo de empatia na pessoa, ou seja, que seus leitores identifiquem em suas palavras alguma coisa que as lembre de suas próprias vidas. Se for um texto diretamente sobre elas, melhor ainda. Mas caso seja alguma coisa do tipo “fui num lugar incrível ontem” ou ainda “não gosto do modo como tratam as pessoas nos correios”, prepare-se para o mais profundo vácuo internético. Portanto contente-se, ao menos uma vez na vida, em não ser o queridinho das pessoas, porque elas não estão na sua frente e não precisam demonstrar nenhum tipo de cordialidade. O que, aliás, me lembrou do seguinte:
2. As pessoas no Facebook não são elas mesmas
Quando eu estou na sua frente, em carne e osso, você não tem muito tempo de reação às minhas palavras e ações. Agora quando estamos dialogando pelo Facebook, o que acontece? Existem pelo menos dois computadores entre eu e você (sem considerar toda a trama da Internet é claro). O que te dá tempo pra pensar, refletir, escolher as palavras, cada vírgula, duas ou três exclamações… Ficamos corajosos de repente, viramos filósofos, digitamos coisas que jamais falamos. É cada dia mais comum vivermos interfaceados. Se você entrar no meu Facebook, por exemplo, verá diversas fotos cuidadosamente escolhidas onde eu apareço sem camisa, fazendo coisas legais como pinturas e Slacklining, por exemplo. A partir delas você pode julgar que minha vida é constantemente preenchida com aventuras desse tipo, mas eu estou escrevendo esse texto de dentro de um escritório com ar condicionado com a maior cara de bunda possível. Portanto acho válido levar em conta a seguinte observação:
3. Nada substitui a “vida real”, offline
Quando sou publicamente criticado na Internet ou minhas publicações não alcançam o sucesso esperado, você acha que passo horas triste, calculando como vou melhorar da próxima vez? Não. Eu encerro minhas atividades online e vou atrás do que me interessa na vida: amigos, bicicletas, meninas, Yoga, Slacklines, desenhos, viagens etc. Eu não tenho um smartphone nem Internet no celular por opção, justamente por causa disso – manter a minha vida carnal saudavelmente distante da minha vida virtual. O que me lembrou do seguinte:
4. Ninguém fica pensando nas coisas que você publica, só você
Essa vai pro meu amigo da bicicleta que ficou todo arrependido do que escreveu. Você fica pensando, pelo restante do dia, em cada atualização de status que lê na sua timeline? Você considera as pessoas imediatamente idiotas ou burras a cada atualização de status pouco inteligente ou pouco inspirada que elas fazem? Bom, eu não. E tenho a forte intuição de que as outras pessoas também não. Não se leve tão a sério – todos nós estamos no mesmo jogo de aparências. Silenciosamente somos cúmplices um do outro nisso tudo. A Internet e as redes sociais podem ser usadas a seu favor – ampliando contatos, expandindo suas opiniões e seu gosto, promovendo seu trabalho etc. Mas é claro que você sempre pode cagar tudo e causar o exatamente o efeito inverso… Os tópicos seguintes descrevem como aumentar o seu I.L. (Índice de Lamentabilidade) nas redes sociais:
5. Usando o Facebook pra reclamar à toa, brigar em público, etc
Pessoas reclamonas e brigonas são especialistas em ferrar com a energia dos ambientes por onde passam. Se você faz isso na vida real, eu não te conheço, porque a vida parece não permitir que esse tipo de gente se aproxime de mim, fato pelo qual sou muito grato à Existência. Mas pode ser que você tenha passado pelo meu Facebook – só que eu já bloqueei suas publicações. Essa é a grande diferença da vida real da virtual – eu posso me relacionar contigo virtualmente e filtrar o que não gosto em você. O seu destino virtual é ambíguo: uma espécie de ostracismo, pois poucos gostarão de acompanhar suas histórias, mas na verdade MUITOS estarão assistindo silenciosamente a sua patética saga virtual de lamentações. Como eu disse lá em cima, talvez seja melhor você não ligar pra isso e tocar sua vida. Ou talvez seja melhor você não ter nenhum tipo de vida virtual, sério. Porque lembrei do seguinte:
6. A Internet e o uso da linguagem
Desconheço o seu passado. Mas pode ser que você não saiba fazer um uso minimamente coerente da língua portuguesa. Acontece. Há quem diga que a linguagem escrita deve ser suprimida em prol das expressões orais. Há quem diga. Porém, saiba do seguinte: você está sendo diariamente auscultado por centenas, milhares de pessoas, e algumas dessas pessoas poderiam lhe indicar o caminho para seu próximo emprego, viagem, um novo amor… Poderiam. Mas não vão. Porque você está desfilando a sua ignorância do código escrito na Internet. E o código escrito é a linguagem da Internet – por mais que você seja articulado e desenvolto em pessoa, nas redes sociais você é pouco mais que um cacófono em busca de atenção. Mas se esse for seu caso, é provável que não esteja entendendo uma linha do que estou escrevendo. Pode ser também que você não esteja entendendo coisa alguma pelo motivo que vou apontar no próximo e último tópico:
7. As redes sociais e o uso do álcool
Evite. Evite a todo custo. Como sabemos todos, o álcool é um poderoso fator de desinibição social. Um bêbado no computador é duplamente desinibido, pois ainda existe a barreira tecnológica que o isola de seus pares e lhe dá coragem pra fazer coisas como escrever uma mensagem tesuda pra aquela ex-namorada, mandar seu chefe se ferrar e outras adoráveis chances de autodestruição social. Tirando a verdade absoluta de que poucas coisas são mais deprimentes que um bêbado solitário em frente ao computador.
Concluindo
A vida em uma rede social é um delicado equilíbrio entre o quanto você quer que os outros saibam de você e o quanto você liga pra isso. Ela pode ou não ter consequências sobre a sua vida “real”. Conheço pessoas extremamente sociáveis, cheias de amigos e tal, que não tem Facebook. Conheço pessoas deprimidas e miseráveis interiormente que possuem mais de 1000 amigos no Facebook. Os casos são incontáveis, porém creio que no geral a experiência é mais ou menos a mesma – ambiente asséptico e impalpável onde projetamos o que achamos que é digno de se tornar público aos olhos dos outros. O desafio é descobrir o que queremos mostrar, como vamos mostrar e como lidamos com as consequências. O que pude descobrir é que a auto-importância e o “foda-se” podem conviver harmoniosamente, sem te transformar num refém de sua vida social internética.
Eu, como possuo um amor louco e irracional pela existência, acho fascinante ficar algumas horinhas no Facebook contemplando o universo mental de meus amigos, e enxergo um pouquinho de mim em cada um deles – o que me permite escrever um texto como esse sem o menor medo de ser aceito ou rejeitado. Já já estarei saindo de meu escritório para a vida, quando subirei em minha bicicleta e pedalarei gloriosamente rumo às aventuras que me esperam nessa terça-feira qualquer.