o homem cego
Há um velho homem cego que caminha pelas ruas de minha cidade com extrema destreza. Ele repete diariamente o mesmo trajeto caminhando com sua bengala. Eu sempre sei quando ele se aproxima, porque seus assobios são altos e melodiosos como o dos pássaros. Arrisco até dizer: são mais altos e melodiosos que os dos pássaros de minha cidade. Quando não está imitando as aves está assobiando belas canções que parecem músicas sobre amores distantes.
Há um ponto próximo a um mercado onde o homem cego se senta e passa o dia cantando e assobiando por alguns trocados. Querido por todos, aparentemente se sustenta do dinheiro que ganha na rua. Mas penso que, em algum momento de sua vida, um homem sente o inevitável desejo de descansar um pouco. Sinceramente espero que ele possa fazê-lo se assim desejar, e que haja alguém providencial ao lado de um velho homem cego e cansado.
Eu tenho vontade de dar-lhe um abraço e falar sobre todos os dias em que o escutei passando e de como me sinto preenchido por seus assobios e músicas sobre amores distantes. De como sua expressão sonora me faz pensar em coisas divinas. De como sua energia e seu bom humor são vibrantes. Este homem cego é algo maravilhoso. Eu tenho vontade de falar sobre este homem para as pessoas. Eu gostaria que todas as pessoas pudessem encontrar com esse homem.
o homem de pouca idade
Existiu um homem de pouca idade que foi morto a tiros em plena manhã de sábado, no centro da cidade em que vivo. Decisões trágicas aparentemente foram tomadas em pleno estado de sandice, fúria e angústia. O som dos tiros rasgando a manhã de sol. Serão os detalhes de alguma relevância?
Hoje passei pelo local onde ontem estava o homem de pouca idade, morto a tiros, diante de muitos. Contemplei por alguns minutos o vazio sinistro daquela calçada; daquela grade que ontem eu achei que era verde. Aquele homem estendido no chão, que encerrava sua experiência humana enquanto eu conversava amenidades e bebia café.
A angústia toma conta de mim quando penso no homem de pouca idade. Evidente que as coisas não poderiam ser diferentes, como nunca são (elas são o que são), mas não consigo deixar de imaginar uma história menos trágica que tivesse como personagem principal o homem de pouca idade.
Eu escreveria que o homem de pouca idade encontraria o homem cego dos assobios lindos. O homem cego ensinaria o homem de pouca idade alguma coisa sobre a vida, algo simples, modificando assim a estrutura do tempo e das pessoas, eliminando então o trágico encontro de dois homens na calçada que se alonga e se quebra até o centro da cidade.