Eu estava com um desejo enorme de escrever a respeito de como nossos computadores e dispositivos eletrônicos são anti-ergonômicos e prejudicam nossa saúde, nossa postura, nossos ossos e nossos músculos, porque temos que ficar sentados, curvados, tortos e focados para fazer uso desses aparelhos. Mas no meio do caminho alguma coisa aconteceu, e eu mudei de ideia – agora eu suspeito que o problema não esteja nos aparelhos em si, mas sim na parte que faz uso do aparelho.
Li um texto do Drauzio Varella falando sobre preguiça, exercícios físicos etc, em um desses links que você clica no Facebook sem se perguntar o motivo. Eu não sou fã do Drauzio, sabe como é – médico (conhecimento científico, autoridade, poder sobre a vida e a morte na visão popular) ventilado na grande mídia televisiva (Rede Globo, filmes etc) – é muito poder dado a um só homem, eu fico desconfiado, não sei, eu nem tenho televisão, embora ela chegue até mim pela Internet; os portais colocam “notícias” das novelas misturadas aos “fatos” e eu não gosto nem de imaginar a leitura que a massa faz disso. Voltando ao texto do Varella.
Em algum momento no início do texto, Doutor Drauzio relaciona a anatomia humana ao péssimo costume de ficarmos horas pendurados em frente a dispositivos eletrônicos. Com a palavra o médico:
Se o corpo humano fosse projetado para os usos de hoje, para que pernas tão compridas e braços tão longos? Se é só para ir de um assento a outro, elas poderiam ter metade do comprimento. Se os braços servem apenas para alcançar o teclado do computador, para que antebraços? Seríamos anões de membros atrofiados, mas com um traseiro enorme, acolchoado, para nos dar conforto nas cadeiras.
É uma interessante ginástica mental imaginar o ser humana da era dos computadores. Eu mesmo já fiz isso, muito antes do Doutor Drauzio, e aqui está a prova, em um texto que publiquei dia 15 de março de 2010 com o título Enquanto isso em um futuro não tão distante. A literatura varelliana sobre o assunto foi produzida ontem (14/01/2014). Perdeu doutor! Um trecho do meu texto para os preguiçosos:
Eu me lembro do dia em que ganhei meu primeiro netnetnetbook. Abri-o emocionado, uma emoção que durou muito, muito pouco. Após poucos minutos de digitação, percebi que minhas mãos precisavam ficar muito juntas, e meus dedos fazerem movimentos tortuosos e contidos, para que eu não apertasse múltiplas teclas de uma vez no minúsculo teclado. Uma tensão horrível nos pulsos e antebraços instalou-se a seguir.
É isso – acabei de citar a mim mesmo. Acho que vou abrir meu perfil do Facebook e me masturbar olhando minhas próprias fotos. A Internet faz maravilhas para o ego. Mas a verdade é que meu texto é um fracasso de público e crítica, sendo que o crítico nesse caso sou eu mesmo. O exercício profético foi péssimo; o texto tem como tempo o futuro, e hoje mesmo já é possível saber que não teremos mais teclados e o aparelho dominante não é nem de longe o netbook, mas sim os smartphones e tablets. Fora isso, meu texto deve ter umas 15 visualizações, e o do Varella já tem 12 mil likes em 2 dias. Voltemos ao texto do doutor então.
Drauzio segue a falar das origens das espécies, que os animais não são dados a desperdiçar energia sem um propósito, e por isso a preguiça: sua origem está nessa maldita “herança genética” dos bichos, que não agem sem necessidade. O doutor, porém, erra (de propósito) ao afirmar que não há gasto de energia em nossa atividade sedentária; que, só porque não andamos mais ou não exercitamos nosso corpo de nenhuma maneira, estamos parados. Nós estamos mais ativos do que qualquer atleta no auge de seu esforço.
Ou vamos fingir agora que conseguimos ficar sem fazer nada? Sem nenhuma atividade, em estado de repouso, relaxamento? Eu desafio alguém a fazer nada. Ou fazer algo do tipo olhar para um minuto se passar no relógio – duvido que conseguimos olhar por um ínfimo minuto para um relógio sem nos distrairmos. Vou fazer duas listas distintas de coisas que podemos fazer sentados, sem gastar energia segundo o doutor Drauzio Varella, já que ele menciona o uso de computadores como uma atividade onde não se gasta energia.
Lista 1:
- Assistir televisão;
- Usar redes sociais no celular ou tablet;
- Ler notícias e assistir vídeos na Internet;
- Jogar jogos do Facebook (ou qualquer jogo eletrônico).
Lista 2:
- Ler um bom livro (não a lista de best sellers da Veja) ou assistir um bom filme (dica: não rola no cinema do shopping, não existe exceção, você está errado);
- Meditar;
- Contemplar uma paisagem;
- Se dedicar a uma atividade criativa (escrever cartas, poemas, diários; fazer desenhos; artesanatos etc)
Qual atividade da lista 1 você fez nos últimos dias? E da lista 2? E qual a diferença entre as listas? E as semelhanças? Comecemos pelas semelhanças. Há dispêndio de energia nas duas listas, ou você conseguiria executar qualquer uma dessas tarefas por tempo indeterminado. Ficar acordado requer energia. É o fim das semelhanças entre as duas listas.
A energia gasta nas atividades da Lista 1 em nada contribuem para o vazio que você sente, esse desespero que te faz entrar nos mesmos sites, assistir os mesmos programas, aguentar ver a mesma propaganda 50 vezes em um dia, ficar indignado com a situação do mundo e querer dar um tiro na própria cabeça depois de gastar 4 horas do seu dia no Candy Crush Saga ou em sites de pornografia. Você está engordando, suas costas doendo, você não caga nem dorme direito, ninguém curte seus posts no Facebook mas você continua a iterar sobre as atividades da Lista 1, e o único problema do iPhone é o preço, e seu único problema é a falta de dinheiro. Você está cansado, mas não exatamente cansado, é um sono estranho, um olhar perdido, uma sensação de que falta alguma coisa – eu nunca vi um animal selvagem deprimido ou obeso. Você não tem poder de reação, está sem energia, apesar de ser sedentário.
Já as atividades da Lista 2 requerem muito mais energia e disposição do que as da Lista 1, apesar de poderem ser feitas sentadas. No entanto é incrível o quanto elas podem amansar – e até mesmo preencher – esse vazio que é sintomático nas atividades da Lista 1. Você pode inclusive se tornar uma pessoa melhor – no sentido de que pode começar a se interessar por outras coisas que não falar mal dos outros, assistir e falar sobre televisão, jogar jogos inúteis etc. Talvez você até pare de falar um pouco.
É nessa hora que entra o Varella: ai, que preguiça, “porque malbaratar energia vai contra a natureza humana”. Eu gostaria de conhecer esses seres humanos aos quais se refere o doutor; a maioria dos seres humanos que conheço (eu incluso) são especialistas em malbaratar energia. Somos capazes de passar um dia inteiro ativos, sem fazer absolutamente nada que nos traga satisfação, aquela que permite um sono tranquilo e um intestino saudável, por exemplo. Que desperdício de recursos naturais, não é mesmo, doutor?
E é por isso eu não posso culpar meu computador e minha mesa completamente inadequada pela minha dor nas costas; nem meu smartphone pela minha lesão no pulso, cãibra no dedo e incapacidade de me relacionar com outras pessoas que não estejam atrás de uma tela. Seria um absurdo eu fazer esse tipo de crítica; esses tipos de aparelhos existem porque nós pedimos por eles. Você está lendo uma notícia sobre o Romário saindo com uma transexual e pensando, “veja só o tipo de coisa que se publica nos jornais hoje em dia“. Surpresa: se você está lendo, é justamente para você que a notícia foi criada – se você puder lembrar de uma frase desse texto, lembre-se dessa. Se você está vendo, é para você. E a cada notícia inútil que você lê, cada vez que uma propaganda repetida pela centésima vez estupra sua mente, você perde energia.
Mas para Drauzio Varella, se ficarmos sentados em frente ao computador ou à televisão o dia inteiro, não estamos gastando energia. Pense muito bem no que essa mensagem representa. 870 mil pessoas curtem Drauzio Varella no Facebook; ele tem uma coluna semanal na Folha de São Paulo. Boa noite.